quarta-feira, fevereiro 8, 2023
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InícioAPLB“Comemoramos pouco, mas esperançamos muito”, por Ana Lúcia Barbosa Góes

“Comemoramos pouco, mas esperançamos muito”, por Ana Lúcia Barbosa Góes

Li em algum lugar que não lembro exatamente onde, uma frase que dizia que o Brasil não é para iniciantes. Essa frase nunca me foi tão real como o que temos vivido nesses últimos anos.

Vivemos hoje uma condição organizada e articulada de ataques e desmonte, cujo objetivo único é destruir as Universidades e Institutos Federais de Ensino Superior. Trago alguns pontos que tenho presenciado enquanto vice-presidenta da APUB Sindicato (Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia) para desenvolver o argumento.

Cortes orçamentários. Segundo pesquisa realizada pelo Observatório do Conhecimento, a estimativa é que entre os anos de 2015 a 2022, tenha ocorrido perdas acumuladas no conhecimento de 100 bilhões de reais. Em associação, o governo federal instituiu sucessivos cortes nas verbas discricionárias, que são responsáveis por manter o funcionamento básico da Universidade. Se pagam com elas, portanto: água, energia e funcionários terceirizados. Elas também são direcionadas para bolsas de ações de permanência estudantil da população socioeconomicamente mais vulnerável.

Permanência e acesso dos estudantes nas universidades. Um ambiente de ensino-aprendizagem sem estudantes não tem necessidade de ter professores. As universidades federais, em especial, as da Bahia, se orgulham de ter transformado a cara da universidade, após a adoção da política de ações afirmativas, especialmente a de cotas. Hoje cerca de 65-70% dos estudantes são da periferia, negros, quilombolas, indígenas, e expressam a cara da sociedade na universidade. Quando não há condições de oferecer permanência para esses estudantes o resultado é adoecimento (inclusive físico, pois muitos passam por desnutrição alimentar) e evasão. A pandemia agravou esse quadro. Quanto ao acesso ao Ensino Superior, tivemos o menor número de inscritos considerado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), em 2021 apenas 4 milhões de pessoas se inscreveram para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

Precarização das condições do trabalho docente. A pandemia nos levou a uma situação de trabalho remoto emergencial, transformamos nossa casa em sala de aula, tivemos que conciliar os cuidados domésticos com o trabalho em um só ambiente, fomos obrigados a desenvolver novas habilidades em tecnologia de informação e comunicação. Nossa renda foi devorada pela inflação, sem aumento nos últimos 7 anos, e segundo o PROIFES Federação (Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico), a perda salarial chega a 32,9%. O resultado desse processo foi o adoecimento de nossa categoria.

Reforma do Ensino Médio (Lei 13.415). Tal reforma retirou a obrigatoriedade de disciplinas como Sociologia, Filosofia, Educação Física e Arte. Os conhecimentos que permeiam essas disciplinas incentivam as pessoas serem cidadãs, a se reconhecerem dentro de contextos de vidas, e a desenvolver opiniões que enriquecem as relações sociais. A reforma é contra esses incentivos, e quer a população alheia à sua própria realidade, para que seja mais fácil aprovar outras leis que a prejudique.

Mesmo com tudo foi listado aqui, é importante salientar que estivemos em luta nos últimos anos a favor de uma educação que seja a expressão de um projeto de Brasil mais humano, igualitário socialmente, diverso, que conviva com as diferenças, que aceite o contraditório, que coloque a democracia como condição fundamental da existência humana. Por isso, devemos também celebrar, pois você professor e professora, seja em que nível estiverem, no Ensino Básico, Técnico, Tecnológico, no Ensino Médio, Fundamental, Superior, Público ou Privado, que se identifica com a arte de compartilhar saberes, escolhemos a docência como missão, e tornamos cada aula que damos em um ato de resistência.

Celebremos o nosso dia! Parabéns pelo dia 15 de outubro!

Resistir é o que nos resta agora para que mais a frente nós possamos ter a esperança de que, como dizia Cazuza, estamos por um triz para o dia nascer feliz.

*Ana Lúcia Barbosa Góes é vice-presidenta da APUB Sindicato.

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