Bolsonaro quer inaugurar adutora pronta há dois anos

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Segundo informações da mídia nacional, o atual presidente irá a Campo Alegre de Lourdes, Bahia, inaugurar uma adutora que vai do São Francisco até à referida cidade. Quando cheguei para morar na Bahia, foi lá que morei por 4 anos, de janeiro de 80 a 84, pelo trabalho na CPT da diocese de Juazeiro da Bahia.

Lá vimos a seca de 79 a 83, fome, sede, migrações, mortalidade infantil e um saque na cidade. Tudo que está na literatura de Raquel de Queiróz, nas pinturas de Portinari, na poesia de João Cabral de Mello Neto, nas músicas de Luiz Gonzaga era realidade nesse município. Ali minha vida mudou, como de tantos outros colegas de equipe.

Pois bem, em busca de água para beber, o trabalho contribuiu para que hoje cada casa do interior tenha sua cisterna de placa, muitas comunidades têm poços e outras fontes de água para não viver mais aquela situação de antigamente. Naquela seca – na verdade naquela falta total de infraestrutura -, a CPT do Nordeste se juntou ao IBASE de Betinho e outras entidades e construiu o livro “Genocídio do Nordeste”. Era a constatação que aquela situação era um genocídio do Regime Militar, não um acaso da natureza.

Numa reunião na Ilha de Itaparica desse movimento, Betinho queria processar Delfim Netto por genocídio. O IBASE tinha feito um cálculo que, se o governo pagasse meio salário mínimo aos “flagelados”, o povo não morreria de inanição, mas, com um quarto de salário, morria.

Os advogados rebateram Betinho, dizendo que não tinham instrumentos jurídicos para processar Delfim internacionalmente. Ele respondia: “eu quero processar Delfim, não quero saber de instrumentos jurídicos, minha questão é ética”.

Pois bem, Delfin não foi processado, hoje temos outro genocídio no Brasil, Campo Alegre mudou e no governo Dilma foi iniciada uma adutora do São Francisco para Campo Alegre, saindo do porto de Passagem, município de Pilão Arcado. Segundo vídeo institucional da CODEVASF, é a maior obra hídrica da região Norte da Bahia, com 105 milhões do governo federal, abastecendo 71 localidades, 40 mil pessoas, 8650 ligações domiciliares, 477 km de adutoras, captação no lago de Sobradinho, 1 estação elevatória, 6 de água tratada, 2 pressurizadas, 6 poços de sucção, 6 reservatório de elevação, 6 casas de cloração. A obra está pronta desde julho de 2018.

Pois bem, Bolsonaro irá inaugurar essa obra. E não vai só. Seus homens de Brasília foram pressionar o padre local, que é figura histórica no município, dizendo que o presidente é católico, quer falar com ele, entrar na Igreja, fazer um comício na porta da Igreja, subir na torre da Igreja para fotografar e filmar a cidade. O Padre já disse que não pode estar presente, é de idade, que a Igreja local nunca participa de manifestações políticas, e que a Igreja está aberta, mas não com a presença dele.

A verdade é que Bolsonaro não colocou um prego de seu governo no Nordeste brasileiro. Deu capim aos nordestinos na eleição, vive em conflito com os governadores, fez demagogia hídrica com dessalinizadores – como se isso já não fosse comum por aqui – só para bajular Israel.

O que mudou o Semiárido Brasileiro foi a captação da água de chuva para beber e produzir nos programas da ASA, “Um Milhão de Cisternas” com a finalidade de abastecimento humano e “Uma Terra e Duas Águas” com tecnologias para produzir.

Depois, no confronto que tivemos com Lula-Dilma, queríamos cerca de 300 adutoras como essa para capilarizar a distribuição de água para o meio urbano do Semiárido, não obra gigantesca como a Transposição. Ali perdemos. Hoje fica claro que, se a água era mesmo para o povo, as adutoras deveriam ter sido feitas. Foram realizadas algumas, não a totalidade necessária.

Quanto a Bolsonaro, já que o Nordeste não existe para ele, então ele também não existe para o Nordeste. Só inaugura obras realizadas por governos anteriores ao seu.

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