Professor do IF Sertão comenta matéria do 60graus sobre água barrenta no S. Francisco

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Recentemente, o portal 60graus divulgou uma matéria sobre a água barrenta que começa a se aproximar do Lago de Sobradinho.

Algumas colocações feitas pela reportagem, segundo o professor Silver Jonas, não condiz com a realidade. Para o professor, uma das causas principais do assoreamento do ‘Velho Chico’ é a destruição do Cerrado.

Trecho da reportagem

 

“O solo agricultável, drenado de uma área de aproximadamente 641 000 km² da
calha do rio, tão arduamente construido e conservado pelos agricultores
profissionais, está se desmanchando em torrões carregados pelas enxurradas que, sem anteparo, despejam uma lama espessa dentro da calha do S.Francisco. Há
trechos, no Estado da Bahia, que já se atravessa, de margem à margem, a pé.”

Comentário

Esses solos ficaram descobertos sem as árvores do cerrado, sem cercas vivas, sem
divisórias naturais, sem reserva legal para proteger os solos, são fazendas gigantes
uma ao lado da outra. A larga escala da agricultura extensiva que se pratica há anos
no oeste baiano só degrada os solos, impede a recarga dos aquíferos e a vazão das
nascentes e rios via subterrânea. Se água da chuva não vai por baixo porque não tem
raízes profundas de árvores do cerrado nem estrutura de solo, nem mata ciliar, as
gotas de água batem direto no solo e compactam a superfície da terra e escorre por
cima. Essa é a explicação da enxurrada lamacenta retratada. É o retrato da perda de
solo agrícola, em outras palavras, erosão (leiam em FAO, 2017). O objetivo de produzir grãos para engordar os porcos e bois europeus, chineses é um
sistema hostil ao ambiente e aos minifúndios dos agricultores familiares, esses sim
produzem a comida do prato do brasileiro e do povo da terra (Leiam em PLOEG, 2008, p. 40-64; FAO, 2014, p. 93)
Portanto essa lama é a denúncia, a prova material, a evidência do solo
continuamente destruído pelo agronegócio brasileiro, e junto da lama vem um caldo
venenos de glifosato e outros agrotóxicos cancerígenos diluídos para nossa água de
beber aqui no sub-médio São Francisco (Leiam em BOMBARDI, 2017, p. 103, 231, 258, 267). BOMBARDI, L. M, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a
União Europeia. São Paulo: FFLCH – USP, 2017. 296 p. Disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1ci7nzJPm_J6XYNkdv_rt-nbFmOETH80G/view
FAO. The State of Food and Agriculture, innovation in family farming. 2014, 161 p. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i4040e.pdf
PLOEG, J. D. van der. Camponeses e impérios alimentares: lutas por autonomia e
sustentabilidade na era da globalização. Trad. Porto Alegre, Ed. UFRGS, 2008. 376 p. FAO. 2017, FAO alerta para aumento da degradação dos solos a nível mundial. Disponível em:
https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/agronegocio/204250-fao-alerta-para- aumento-da-degradacao-dos-solos-a-nivel-mundial.html#

Silver Jonas
Professor no IF Sertão Pernambucano, Campus Petrolina Zona Rural.

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